100 mil mortes — mas “vamos tocar a vida”!

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O primeiro diagnóstico de Covid-19 no Brasil foi confirmado em 26 de fevereiro. Hoje, 164 dias depois, chegamos à marca de 100 mil mortos pela doença.

Para comparação, a primeira pandemia do milênio, a do vírus influenza H1N1, vitimou pouco mais de dois mil brasileiros em seu primeiro ano. Ao todo contaminou, em 2009, 53.797 pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde. O surto do novo coronavírus se aproxima da casa dos 3 milhões de infectados somente em nosso país.

E a subnotificação é imensa. E o futuro, uma estrada quase sem impedimentos.

Escrevi algumas vezes sobre minha perspectiva da quarentena. Pensando bem, foi exercício mesquinho — se não inútil. Nada do que então disse tem grande importância agora.

Salvo engano, estamos há 84 dias sem ministro da Saúde; vamos para o terceiro mês de interinidade. Bolsonaro não suportou que os dois médicos que nomeara para o cargo, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, lhe dissessem como gerir a crise. Muito provavelmente, a coisa está para além da sua compreensão. No lugar deles, temos o general Pazuello, que acata ordens em silêncio.

As declarações do presidente a respeito da evolução da pandemia foram de uma insensibilidade que adentra o francamente desumano. Traduzidas, elas rodaram o mundo em vários veículos de imprensa. Devem ter dado azo a que estrangeiros pensassem que somos todos, como o nosso mandatário eleito, selvagens, há bem pouco tempo despenhados das árvores. Devem ter reforçado preconceitos antigos, portanto.

Por que tenho a impressão de que nossa marca de 100 mil mortos por uma doença que tem sido mantida sob controle com inteligência e disciplina por diversos países quase não incomoda? Estamos anestesiados? Nossa empatia se esvaiu com o confinamento? Estaríamos de saco cheio de circular menos e dando de ombros para a mortandade? O presidente nos teria convencido com seu fatalismo de Messias que não faz milagres? Ou teria ele apenas revelado uma aridez que habita no coração de cada brasileiro?

A última de Bolsonaro foi dizer que devemos “tocar a vida”. Certo. De algum modo, é o que temos feito, dentro ou fora de casa. Não precisamos do presidente da República para nos lembrar disso. Um Renato Teixeira é capaz de nos dizer algo semelhante — e com verdadeira beleza.

(Quase me sinto grato por Bolsonaro não ter dito, como o sujeito que viu a lotação dos bares em uma rua do Leblon, que deveríamos na verdade é curtir a vida.)

Porém, o fato é que se pode “tocar a vida” sem roçar tanto na morte, sem tropeçar em corpos. E um chefe de governo que não negasse a realidade ajudaria nisso.

Em Obermann (1804), romance epistolar de Étienne Pivert de Sénancour, lê-se esta citação, muito cara a Don Miguel de Unamuno e a Albert Camus:

O homem é perecível. É possível: mas pereçamos resistindo. E se o nada nos está reservado, não façamos com que isso seja uma justiça.

A vida, pois, é o que resiste à morte. E só adquire valor pela qualidade — e pela intensidade — dessa resistência. O resto é niilismo, consciente ou não.

Tudo isso é algo óbvio — ou que deveria ser óbvio.

Mas as paixões políticas — ou pior: as paixões político-religiosas — têm o condão terrível de ofuscar o óbvio. E, assim, desobrigar as pessoas da compaixão, em nome de sabe-se lá o quê.

Ali onde não há compaixão é a morada do nada.

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.