Falando de coisas difíceis a uma criança

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Como pai, tenho meus temores. Um deles está ligado a uma pergunta, à qual não desejo responder tão cedo:

— Pai, por que temos que morrer?

Para não deixar minha jovem interlocutora sem algo, eu certamente lhe diria que as coisas todas têm começo, meio e fim, que todos os seres passam por isso.

No lugar dela, eu talvez me sentisse insatisfeito com a resposta, que certamente poderia ser atalhada com:

— Mas por que tudo chega ao fim?

O que me deixaria na posição de quem nada tem a dizer.

Nas páginas que lemos antes de dormir, temos tangenciado algumas questões difíceis. Desde que ela e eu percorremos O pequeno príncipe, com seu desfecho tão triste quanto misterioso, entendi que a educação dos sentimentos de uma criança pode contar com o auxílio de alguns livros mais densos. A condição é que estejam intercalados a leituras mais leves, que devem ser majoritárias. Pois é a dose que faz toda a diferença.

Em um artigo de 2007 sobre as ideias pedagógicas dos estoicos romanos, o professor Marcos Santos Gómez, da Universidade de Granada, sintetizou algo que também está em minhas preocupações:

Cremos que a educação, se busca uma melhora das pessoas e da sociedade, tem de confrontar circunstâncias próprias da condição humana como são o sofrimento, a injustiça e a finitude.

Estão aí os três maiores problemas humanos. Eles expõem uma face dura da existência, a que os mais jovens também estão submetidos, independentemente da ciência que venham a ter — ou não ter — dessas coisas.

Ingênuos e não ingênuos, estamos todos no mesmo barco.

Portanto, uma educação digna do nome não pode prescindir de apresentar, ainda que a conta-gotas, algumas situações ásperas com as quais os seres humanos de todas as épocas se mediram.

Isso não significa reforçar a noção de que a vida não tenha sentido, nem tampouco implica destruir a inocência de indivíduos em formação. É injusto e inexato supor que a vida se resuma a seus aspectos ruins. Porém, se quisermos que nossos filhos cresçam vigorosos e resilientes, há que lhes mostrar que nem tudo é um mar de rosas.

Nesse diapasão, pensei que ler sobre um certo príncipe, do povo dos Shakyas, que teria vivido há uns 2.500 anos, poderia ser instrutivo.

Um dos livros que me vieram parar nas mãos recentemente foi The life of the Buddha (2020), lançado pela casa Shambhala Publications.

O texto é de autoria da educadora Heather Sanche: simples e direto, permite tradução rápida para quem tem fluência em inglês. As ilustrações de Tara di Gesù, numa paleta de cores algo fria, são de fato deslumbrantes, aptas a estimular a imaginação. As duas são estreantes no mercado editorial — e lhes desejo um futuro prolífico nessa área.

A edição, de capa dura, não é barata, ainda mais nestes tempos de relação pouco civil entre dólar e real. Espero que alguma editora brasileira tenha o interesse de publicar a obra por aqui um dia.

Como não encontrei uma biografia de Gáutama Buda para crianças em nossa língua, optei por essa, que me pareceu a mais bonita. Visualmente, foi um bom presente, de encher os olhos. A questão mais delicada — e para a qual não tinha repostas, se é que as tenho agora — seria saber até que ponto os temas ali tratados seriam adequados para uma criança em idade de alfabetizar-se.

Qualquer pessoa com alguma familiaridade com a história do Buda deverá se lembrar das quatro visões. Elas tiveram impacto decisivo na trajetória do príncipe que se tornou um renunciante. Têm um valor arquetípico, por assim dizer, sendo que nelas não devemos crer de modo literal ou em suas minúcias. Representam o ponto de virada para o próprio Siddharta Gáutama — e, por analogia, para diversos homens e mulheres que vivem sobre esta Terra, que em um momento X se deram e se dão conta de nossa fragilidade. Curiosamente, guardam relação com o trecho de Santos Gómez que citamos.

Diz a tradição que, tendo sido criado em palácio, cercado de todos os cuidados e prazeres de sua condição, Siddharta fora poupado das agruras da vida. Contudo, um dia, lá por seus 29 anos, ele sofreu um choque ao avistar, de sua carruagem luxuosa, primeiro um homem velho, depois um homem emaciado pela doença e mais adiante o corpo de outro, a ponto de ser cremado.

Perguntou então a Channa, que lhe servia de cocheiro, se aquela era a condição do ser humano e se ele, Siddharta, nascido em berço de ouro, também passaria por tais coisas. Sabemos as respostas.

Por último, viu um sadhu, com seu manto cor de açafrão, e invejou a tranquilidade daquele asceta. Segue-se a isso sua trajetória espiritual, com suas muitas dúvidas e seu triunfo final.

É um relato para adultos, para gente com certa bagagem de ilusões e desenganos. A primeira nobre verdade costuma ser enunciada de modo um tanto cru: “toda a vida humana é sofrimento”. No texto de Sanche, lemos algo como: everyone suffers (“todos sofrem”). Será adequado falar assim, tão taxativamente, a uma criança? A partir de que idade poderíamos usar essa linguagem?

Quando contei a história, optei por paráfrases atenuantes: todos nós passamos por coisas tristes, a vida envolve algumas tristezas. Mesmo o termo “sofrimento” — tradução do páli dukkha — e central nos ensinamentos budistas me pareceu excessivo para a sensibilidade infantil. No fim, meu intuito como não budista não é moldar uma consciência fresca dentro de um quadro espiritual ou religioso, mas simplesmente apresentar uma bela história, que faça uma criança pensar um pouco, mas não a ponto de levá-la à cisma ou ao pavor.

Também julguei necessário amenizar o tom quando se fala da morte, preferindo algumas vezes dizer “o fim”. As crianças, claro, não ignoram de todo o problema: já ouviram falar de parentes, de artistas, de cientistas que se foram. Porém, é uma coisa bem distinta entender profundamente que essa lei da existência vale para todos nós, chegar a imaginar que isso, mais cedo ou mais tarde, se imporá sobre nós e sobre os que amamos como uma necessidade.

Quando pequeno, aos seis anos, vivenciei a morte de meu avô paterno. Tenho lembranças nítidas daqueles dias. Entretanto, nem todas as crianças passam por isso tão cedo. Se é absurdo forçar uma percepção de nossa finitude de maneira tão precoce, também não faz muito sentido jamais tocar no assunto com um pequeno ser humano, como se isso não lhe dissesse respeito.

Uma grande qualidade de The life of the Buddha é não entremear acontecimentos sobrenaturais à vida do sábio dos Shakyas. Igualmente não se fala da questão da reencarnação. Não sendo imediatamente verificáveis, essas coisas têm a ver com crenças pessoalíssimas. A única exceção é o sismo que teria havido depois da iluminação, à sombra da árvore de Bodhi, quando o Buda tocou a terra para tomá-la por testemunha (Bhumisparsha Mudra).

Em falta na obra de Sanche e di Gesù estão alguns dos relatos que se incluem nos 45 anos de magistério do Buda, depois que se estabelece a Sangha (comunidade de monges que o seguiam). Há alguns, anedóticos, bastante interessantes (um ou outro está n’ As 14 pérolas budistas, 2010, de Ilan Brenman, com ilustrações de Ionit Zilberman).

Infelizmente, é quase meio século passado sob silêncio. As crianças poderiam se beneficiar imensamente dessas narrativas, de cunho mais prático, que não costumam figurar nos livros que lhes são dedicados. Elas ilustram de maneira inequívoca o que vem a ser uma existência pautada pela tranquilidade e pela sabedoria.

Por fim, cabe-me dizer por que uma história tão antiga poderia ter apelo para pais e crianças de hoje, mesmo que jamais manifestem interesse pela iluminação espiritual que é a promessa do budismo.

É possível ver paralelos entre a situação alienante do príncipe no início de sua trajetória e aquela que é a do típico habitante das cidades modernas.

Multiplicamos enormemente os objetos a nosso redor, diversificamos insensatamente nossas atividades, tornamo-nos irrefletidamente dependentes de confortos — e assim ampliamos perigosamente nossa lista de apegos.

O que não torna absolutamente ninguém mais feliz ou mais sereno, apenas um consumidor mais dócil e mais fanático.

Enquanto isso, a vida interior permanece como uma paisagem quase intocada — como as florestas outrora palmilhadas pelos ascetas da Índia.

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Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.